Friday, July 07, 2006

Iconografia e simbologias religiosas no cristianismo


1- Introdução: mitos e símbolos

Todos os povos, ao longo da história, cultivaram as suas próprias expressões religiosas e fizeram desenvolver as suas sociedades de acordo com estas. A expressão religiosa de cada povo foi-se manifestando através de complexas simbologias, que se foram construindo, ao longo dos tempos, sempre com o propósito de fornecer explicações para o mundo e para as questões existenciais.

Esta tentativa de compreensão, por parte das culturas humanas, levou à criação dos mitos, nos quais eram atribuídas explicações divinas aos factos que a observação ou a discussão não podiam explicar. A morte é, sem dúvida, o mais antigo factor promotor de crenças religiosas. A tradição dos rituais funerários é mais antiga do que a própria humanidade, tal como a conhecemos. Evidências arqueológicas demonstram que espécies que nos precederam, como o homem de Neandertal, praticavam rituais, nos quais enterravam objectos juntamente com os mortos. Esta utilização de objectos nos rituais funerários implica uma simbologia, o que deixa entender algum tipo de relação com o divino.

Assim, poderemos estabelecer a conjuntura de que, se tinham ritos, também tinham mitos, por simples que fossem. Com o homo sapiens sapiens, estes mitos desenvolveram-se, e sofisticaram-se, tal como os respectivos rituais. Numa explicação simplificada deste fenómeno, poderíamos afirmar que os mitos são tornados perceptíveis através de signos mitológicos, ou deuses. Como estes deuses não são cognoscíveis, criaram-se complexos sistemas simbólicos, para os representar e, de certo modo, substituir a presença divina.

Para se compreender a natureza divina de um símbolo religioso, no entanto, é necessário conhecer o arquétipo fundador do mito, ou seja, é necessário dispor de conhecimentos sobre as suas conotações possíveis, para o interpretar da melhor forma. Por isso, para que possamos compreender o significado de um símbolo religioso, não é necessário que o veneremos, mas é indispensável ter em conta que outras pessoas o fazem. Por isso, a sua descodificação obriga-nos a, pelo menos, conhecer os mitos que originaram tal símbolo.

Perante um Ícone de Cristo, um cristão sente redobradamente a presença de Deus, pois a representação gráfica que está na sua frente é, ao mesmo tempo, uma manifestação do Divino, que, por si só, inspira o respeito nos crentes. Mas um crente noutra religião, um agnóstico ou um ateu, precisam de conhecer a tradição e as práticas cristãs para entender perfeitamente o significado desse símbolo no contexto em que se enquadra.


2-Simbologias pagãs e cristianismo

Muitos símbolos das religiões pagãs, que antecederam os cultos monoteístas (e no seio das quais estes nasceram), incorporaram, na actualidade, o imaginário simbólico do cristianismo.

Para melhor compreender esta relação entre simbologia cristã e mitologia, começamos por dedicar algumas linhas à forma como as mitologias transmitiram, à concepção estética e religiosa dos cultos cristãos, alguns dos seus mais proeminentes símbolos: a religião dos antigos gregos, atribuía a regulação de todos os aspectos do mundo a entidades divinas, ou deuses. Esta religião, segundo a classificação moderna, enquadra-se num politeísmo antropomórfico. A vários deuses, com formas e atributos humanos, eram atribuídos domínios específicos, como o céu, a terra, os mares ou o mundo subterrâneo.

Também as simbologias mitológicas egípcias e romanas podem ser assim classificadas, dada a pluralidade de divindades que compõem estes panteões. A primeira das religiões monoteístas foi o judaísmo, que incorporou elementos mitológicos e lendários de tradições mais antigas, de modo a fortalecer a crença num Deus único. Esta incorporação de elementos visava desviar a adoração popular dos deuses pagãos e centrá-la na veneração de um Deus único.

A alegoria de Adão e Eva, por exemplo, tem a sua origem em antigas tradições mesopotâmicas. Terá sido adaptada ao contexto do judaísmo, através da sua inclusão, por Moisés, nos textos do Antigo Testamento. Também a trilogia Ísis, Osíris e Horus, da mitologia egípcia, é comparada à Santíssima Trindade do catolicismo.
Mas a imagem que tem mais evidências de comparação é, sem dúvida, a de Ísis com o seu filho, Horus, nos braços, muito semelhante à imagem da Virgem Maria com Jesus ao colo.

Para fornecer um exemplo de manifestações de paganismo nas cerimónias cristãs, faremos uma pequena referência à simbologia pascal e as correspondências que encontramos com diversas manifestações, em civilizações e culturas distintas, com elementos mitológicos pagãos semelhantes.

A componente pagã da Páscoa encontra-se, sobretudo, em duas representações, hoje reconhecidos pela Igreja como símbolos pascais: o ovo e o coelho. No Norte da Europa, há sepulturas pré-históricas que incluem representações de ovos, o que sugere, nesses povos antigos, uma crença na vida eterna. Os egípcios acreditavam que o Deus Rá[1] tinha nascido a partir de um ovo. Um curioso paralelismo mostra-nos que também para os hindus o ovo tem um significado religioso, pois segundo a tradição, o Deus Brahma[2] terá também nascido de um ovo de ouro e, com a casca deste, terá criado o Universo.

O ovo era considerado, por diversas simbologias pagãs, como a génese da vida humana. No século XVIII, a Igreja Católica acabaria por adoptar oficialmente o ovo como símbolo da Páscoa. Alguns povos da antiguidade consideravam o coelho como o símbolo da Lua. É assim possível que tenha sido relacionado com a data da Páscoa devido ao facto desta data ser determinada pelo calendário lunar.


3- Primeiros símbolos Cristãos

Em língua grega, as iniciais das palavras que compõem a frase “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, resultam na palavra Ichthus, a palavra grega para “peixe”. Foi através desta forma que se julga ter nascido a associação simbólica do peixe ao cristianismo. Este símbolo era utilizado pelos primeiros cristãos, durante a clandestinidade do seu culto, perante a autoridade romana, que impunha a religião politeísta oficial do império. Nesta primordial celebração litúrgica, um crente desenhava um arco, na areia do chão e outro desenhava o segundo arco, o que resultava num desenho com a forma de um peixe. O peixe era também associado à ideia de os apóstolos serem “pescadores de homens para a fé cristã”.

Este acto significava uma fraternidade entre as pessoas, no seu relacionamento, e um acto de respeito perante Deus. Nos primeiros séculos do cristianismo, eram também utilizadas, como símbolo cristão, a primeira e a última letra do alfabeto grego, o Alfa e o Ómega. A conjugação gráfica destas duas letras fazia referência à ideia de Cristo ser o princípio e o fim de todas as coisas.


4 - “Por este sinal, vencerás!”

No início do séc. IV d.C., o imperador Constantino aboliu as leis que existiam no império romano contra os cristãos. Este grupo religioso minoritário tinha vindo a sofrer represálias, por parte do poder romano, desde a morte de Jesus. Eusébio[3] relata, na obra Vida de Constantino, os factos que terão levado à conversão do caudilho à fé cristã. Neste texto, é descrita a sucessão de acontecimentos que convenceram o Imperador de que Cristo o escolhera, para levar a cabo missões extraordinárias.
No ano 312, Constantino conduzia os seus exércitos sobre Roma, a fim de libertar a cidade do poder de um imperador rival, Maxêncio, quando no seu caminho terá surgido, no céu, uma cruz acompanhada da frase “Por este sinal, vencerás”. Na noite antes do assalto à cidade, Jesus Cristo ter-lhe-á aparecido, em sonhos.

Este acontecimento foi documentado por Eusébio como tendo sido decisivo para os acontecimentos que se seguiram. Nesse sonho, Jesus terá sugerido ao Imperador que a cruz seria a sua protecção. Constantino decidiu então fazer transportar, na frente da sua coluna militar, um estandarte, brasonado com o cristograma[4] que terá criado mediante inspiração divina, para que assim pudesse, protegido por Deus, alcançar a vitória na batalha.

O Imperador ordenou então que se fizesse um estandarte, em ouro, que seria o símbolo da sua devoção a Cristo. Fez também com que os seus homens pintassem cruzes nos seus escudos, o que, de acordo com o seu sonho, os protegeria do inimigo. Constantino venceu a batalha e esses acontecimentos foram determinantes para a sua conversão ao cristianismo.

Durante o resto da sua vida, os seus exércitos marcharam, exibindo o seu símbolo nas suas espadas, escudos e vestes, para que pudessem obter a protecção divina. Os cristogramas passaram rapidamente a ser usados por muitos cristãos como adornos, ou simplesmente representados através de pinturas ou esculturas.


5 - Ícones Sagrados

O Ícone pintado, feito de madeira, está intimamente ligado á liturgia bizantina, por isso, na actualidade, a sua carga simbólica é mais acentuada nos países de leste, de tradição católica ortodoxa, mas é também reconhecida pelos fiéis da Igreja Católica Romana.

Também aceite pelo catolicismo romano, o Ícone Religioso é o produto de uma arte teológica, que se limita a exprimir a beleza do sagrado.
Não deve ser classificado como um retrato, porque simboliza o Espírito Santo. As Igrejas Ortodoxas atribuem uma grande importância às cores e à expressão das figuras, que dizem transmitir visões do mundo espiritual. As figuras aparecem coroadas com uma auréola dourada.

Os Ícones de Santos são mais habituais nas Igrejas Ortodoxas. A carga simbólica dos Ícones de Jesus, no entanto, é amplamente reconhecida pelos católicos ocidentais. Para os cristãos ortodoxos, os ícones significam purificação e regeneração.

Os cristãos ocidentais, sobretudo a partir da renascença, assumiram um estilo mais livre, na sua arte Sacra, enquanto as igrejas de leste mantiveram uma atitude de fidelidade à iconografia tradicional. Mas há um ponto, em toda esta discussão acerca dos ícones, que consegue reunir o consenso de todas as correntes cristãs: Deus terá, a partir de um pedaço de barro, moldado Adão, à sua semelhança. Adão é assim o primeiro ícone de Deus.

Desde o seu surgimento, os ícones nunca foram considerados meras obras de arte. Os primeiros iconógrafos[5] retratavam com imagens, cores e jogos de luz, as ideias que os Evangelhos expressavam com palavras. Esta convenção ficou estabelecida no Segundo Concílio de Niceia[6].

Do Imperador à pessoa mais humilde, todos os Bizantinos aprenderam a relacionar-se com os ícones como uma expressão de fé. Tal como a iconografia, também a arquitectura se revestiu de um profundo carácter sagrado na cultura bizantina. O espaço interior passou a ser aproveitado em função dos jogos de luz e sombra. Outras artes, como a escultura, a pintura, os bordados ou as tapeçarias são caracterizadas pelas manifestações de fé, o que mostra o poder dos conceitos religiosos nesta cultura.

Actualmente, a religião tem ganho importância nos hábitos populares. Com a queda dos antigos regimes políticos, as populações têm vindo a readquirir antigos hábitos religiosos. E com esse ressurgimento, as repercussões estéticas do Império Bizantino (e de toda a sua simbologia e iconografia), reaparecem em grande parte dos países da Europa de Leste, através de um aumento na procura e, por consequência, na manufactura de ícones.

6- Diferenças estéticas na arte sagrada: iconógrafos ou artistas?

Enquanto o Ocidente expressa a fé vivida mediante a experiência pessoal do artista, o Oriente rege-se pelos cânones estabelecidos pela Igreja. O artista ocidental, desde o renascimento que expressa, nas suas obras de arte religiosas, a sua própria experiência estética, os seus próprios sentimentos, através de obras de arte que podiam retratar qualquer motivo religioso que lhe fosse sugerido ou solicitado.

Por seu lado, a Oriente, os iconógrafos, seguindo as determinações da Igreja, tentaram reproduzir as mesmas passagens bíblicas, omitindo qualquer experiência ou sentimento pessoal limitando-se a expressar o conteúdo dos Evangelhos com simplicidade.

Os iconógrafos, na antiguidade, eram sempre monges e a concepção gráfica dos ícones era uma função conferida pela Igreja. A tarefa do iconógrafo era comparada à do sacerdote. Porque ambos reproduziam a palavra de Deus, o primeiro com as cores e o segundo através da palavra.
Um ícone distingue-se das obras de arte renascentistas numa grande quantidade de elementos, dos quais achamos relevante salientar os seguintes: O tratamento da perspectiva, as proporções do corpo e os planos representados num ícone não seguem os habituais padrões estéticos de beleza. A atribuição do papel divino aos ícones baseia-se exactamente nessa perspectiva estética de “Belo e Divino”. A simplicidade que caracteriza os ícones não deixa lugar a representações supérfluas, apenas permite a inclusão dos elementos essenciais para uma percepção religiosa dos textos sagrados, mas através de imagens.


7- Islão sem imagens

Tendo em conta a intersecção geográfica e social entre o cristianismo e o islamismo, não podíamos deixar de referir, em breves linhas, as posições estéticas do Islão em relação à adoração de imagens.

Esta religião retirou por completo a veneração ou adoração de imagens dos seus costumes religiosos. Esta atitude fundamenta-se numa suposta necessidade religiosa de evitar a idolatria. Não é adequado prestar admiração divina a seres humanos, pois segundo o Alcorão, apenas Deus é divino. E porque a Sua imagem é inacessível, não devem ser utilizadas imagens para O venerar.

Este culto religioso centra a sua adoração a Deus (ou Allah) numa reprodução gráfica dos textos sagrados. O melhor exemplo dessa adoração da escrita é a panóplia de inscrições que preenchem as paredes das mesquitas de todo o mundo.
Na actualidade, é comum os crentes desta religião transportarem consigo, como um talismã, pequenas medalhas com as inscrições “Allah é Grande” ou “Allah é o único Deus e Maomé o seu Profeta”.

8- O signo maldito

O Antigo Testamento apresenta Satanás como tendo sido criado por Deus. A esse anjo, Deus terá dado o nome de Lúcifer, tendo-lhe atribuído grandes poderes. Mas Lúcifer, tomado pelo orgulho, ter-se-á revoltado contra Deus, tornando-se no Seu inimigo. A própria palavra Satanás significa, em hebraico, “inimigo” ou “adversário”. Na tradição cristã, essa palavra tornou-se num signo maldito, pelo que se lhe atribuíram uma grande variedade de nomes alternativos.
No Novo Testamento, o Apóstolo João retrata Satanás como um grande dragão, outro signo universal para as forças do mal. É também referido como “a serpente” ou “o diabo”. No fundo, é um signo para o Mal.
Nos Panteões politeístas sempre houve lugar para deuses maus e deuses bons, porque as significações eram mais diversificadas. Nas religiões monoteístas, da nossa tradição cultural, o Bem tinha uma representação forte, o próprio Deus. Mas como em todos os arquétipos narrativos, também nestes cultos era necessário que existisse um antagonista, uma força cuja acção permitisse uma visão maniqueísta do mundo. A figura de Satanás preenche esta necessidade narrativa no arquétipo que envolve as tradições judaica, cristã e muçulmana.


9-Símbolos da liturgia cristã moderna

Tendo em conta a enorme diversidade de formas de culto cristão, não é fácil estabelecer um livro de convenções simbólicas cristãs. Porque isso implicaria uma vasta explicação sobre os acontecimentos que levaram às divisões que deram origem à actual diversidade de cultos. Por esse motivo, restringimos esta exposição a um resumo adaptado dos conteúdos apresentados no site da Igreja Luterana Brasileira, que a apresenta como sendo universal, para todos os cristãos. Todavia, de modo a salvaguardar alguma imprecisão em relação à univocidade destas descrições, quanto à possibilidade da existência de diferentes significações, por outras interpretações da fé cristã, aqui fica a ressalva.

Neste site são apresentadas quatro simbologias principais. São estas as cores litúrgicas, os brasões e os dias dos Apóstolos, os números e, como não podia deixar de ser, as cruzes. Apresentamos assim uma versão resumida e adaptada dessa enumeração:

(nota de publicação: por uma questão de comodidade, não coloquei as imagens que correspondem a cada cruz ou santo. Para aceder ao site da Igreja Luterana Brasileira, clique aqui)


9.1- Cores litúrgicas

Preto: Simboliza a morte. É usada como cor litúrgica na Sexta-feira Santa.

Azul: É o símbolo do céu e da verdade.

Castanho: Representa a morte espiritual.

Cinzento: Simboliza o dualismo entre mortalidade do corpo e imortalidade do espírito. Pode também ser signo de arrependimento.

Verde: Liturgicamente, significa o triunfo da vida sobre a morte. É a cor usada no período da Trindade e da Epifania[7].

Roxo: Esta cor significa penitência e lamentação. É a cor litúrgica usada no Advento e na Quaresma.

Vermelho: Símbolo do sangue e do fogo. É usada como cor litúrgica nos dias dos santos martirizados e no dia de Pentecostes.

Branco (ou prata): São, desde os tempos bíblicos, símbolos de pureza, inocência e santidade. O branco é também a cor litúrgica para os períodos do Natal e da Páscoa.


Amarelo: Pode ser usada como sinal de divindade. No entanto, tem também uma segunda conotação, simbolizando a corrupção humana.



9.2- Significados de algumas cruzes

Cruz Latina

É a mais comum de todas as cruzes. Era, no tempo do Império Romano, um instrumento para a execução das sentenças de morte. Jesus foi crucificado porque a morte na cruz era um acto de humilhação. Numa interpretação mais generalista, pode ser vista como signo de ressurreição e esperança numa vida eterna.

Cruz Alfa e Ómega

Esta é uma cruz latina combinada com a primeira e última letra do alfabeto grego. É usada sobretudo nos períodos da Trindade e da Ascensão.


Cruz Latina com proclamação

As iniciais na faixa representam a frase que o executor de Jesus ordenou que se inscrevesse na cruz onde ele foi crucificado: "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus".


Cruz de São Pedro

Representa a crucificação do apóstolo Pedro, que terá sido crucificado de cabeça para baixo.


Cruz da conquista e da vitória

Esta é uma tradicional cruz grega, complementada com a primeira e a última letra do nome de Cristo, em caracteres gregos (IC) e a palavra grega para vitória (NIKA). Os traços sobre as letras indicam que são abreviaturas.


Cruz âncora

A cruz associada a uma âncora simboliza a esperança que Cristo depositou na humanidade. Esta cruz também é também associada ao martírio de São Clemente, Bispo de Roma, que terá sido amarrado a uma âncora e lançado ao mar, pelo imperador Trajano.


Cruz de alça ou Ankh.

Na antiga escrita egípcia, a sua tradução é simplesmente “vida”. Interpretações posteriores sugerem que é uma representação do útero. É também conhecida como Chave de Nilo, visto que, na mitologia egípcia, representava a união de Ísis e Osíris, que originava as cheias periódicas do Nilo. A alça oval, que distingue o Ankh de outras cruzes, representa a união entre o feminino e o masculino, fundamentais para a concepção de vida.


Cruz do Calvário

Esta cruz latina é representada sobre três degraus, que representam a subida de Jesus ao Calvário. Os três degraus podem também simbolizar a fé, a esperança e o amor.


Cruz Celta

Cruz inspirada nos elementos mitológicos dos povos celtas, que povoavam grande parte da Europa ocidental. É ainda hoje usada, sobretudo na Escócia e na Irlanda.


Cruz Patriarcal

Esta cruz difere da tradicional cruz latina no braço superior. Este representa a inscrição colocada por Pilatos na cruz de Jesus.


Cruz da Páscoa

Esta cruz surgiu na simbologia da Igreja Ortodoxa Russa. O braço superior representa a inscrição que Pilatos colocou sobre a cabeça de Jesus. O significado da trave inclinada é controverso. Uma tradição diz que as pernas de Jesus não eram do mesmo tamanho. Outros afirmam que o significado da inclinação é o terramoto que ocorreu quando estavam a crucificar Jesus. Uma outra explicação relaciona este braço com a cruz de Santo André.


Cruz de Santo André

Segundo relatam as tradições cristãs, Santo André ter-se-á sentido indigno de ser crucificado como o seu Senhor, suplicando aos seus carrascos que a sua cruz fosse diferente. É um signo para a humildade perante o sofrimento.


Cruz Tau

Esta letra grega é apresentada pelo Antigo Testamento como o sinal da Profecia. Está associada a um antigo ritual judaico, que envolvia o sangue de um cordeiro.



Cruz de Jerusalém ou das Cruzadas

Esta cruz é composta por uma cruz central formada por quatro cruzes “tau”. As quatro cruzes gregas representam o cumprimento da lei hebraica no evangelho de Cristo. Outros vêem neste conjunto, um símbolo da expansão da crença cristã aos quatro cantos da terra. Outras interpretações relacionam as cinco cruzes com as chagas de Cristo. Esta cruz foi usada pelos cavaleiros cristãos durante as cruzadas. Actualmente é relacionada com as épocas de Pentecostes e da Trindade.


Cruz Natalícia

Esta cruz em forma de estrela representa o nascimento de Jesus, sendo por isso usada nas épocas de Advento e Epifania.


9.3- Significados cristãos para os números


1 É o número da singularidade e da unidade. É por isso o número que mais representa o Criador.

2
Este número representa a dualidade entre o que é material e o que é espiritual, ou Cristo entre a natureza humana e a natureza divina.

3 É o signo da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

4 Pode significar, além dos quatro Evangelhos, os quatro elementos (ar, terra, fogo e água), os quatro cantos da terra ou as quatro estações do ano.

5 É, para os cristãos, o número do sacrifício. Representa as cinco chagas de Cristo na Cruz.

6 É considerado o número da criação, pois Deus terá demorado seis dias a criar todas as coisas. Também pode ser um signo para imperfeição, porque precede o número da totalidade e da perfeição. Além disso é considerado, pelos cristãos, um número de pecado, pois representa Nero, o sexto Imperador de Roma.

7 Numero da perfeição. Após a criação, Deus terá descansado, ao sétimo dia, o que, para os cristãos significa que a sua obra estava completa, total e perfeita. A Bíblia refere sete virtudes do Espírito. Conforme o livro de Apocalipse, há sete selos no livro da vida, e no mesmo livro são mencionadas sete igrejas.

8 Representa a regeneração e a ressurreição. É com este significado que as pias baptismais são compostas por oito lados.

9 Número do mistério e dos anjos.

10 Foram os mandamentos impostos por Deus aos homens e o número das pragas bíblicas. Pode também ser usado para expressar a ideia de completo.

12 Eram doze as tribos de Israel, unidas num só povo pelo Rei David. É também o número dos apóstolos.

13 Este número é conotado com o azar e com a infelicidade. Nas representações cristãs, é muitas vezes usado como o número da traição, numa alusão à traição do 13º Apóstolo.

40 O dilúvio, descrito no primeiro livro da Bíblia, terá durado quarenta dias e quarenta noites. Os Judeus, no seu êxodo, terão caminhado durante quarenta anos no deserto egípcio. Após o seu baptismo, Jesus terá também andado quarenta dias no deserto.

100 Pode ser conotado com o absoluto, ou com a plenitude

1000 Este número, tanto na tradição Cristã como na islâmica, é muitas vezes usado para representar o incalculável, o perfeito ou a eternidade. Numa interpretação cristã, pode representar a ressurreição dos justos.


9.4- Dias, escudos e emblemas dos apóstolos


Santo André

André era o irmão de Pedro. Acredita-se ter sido o fundador da igreja cristã na Rússia. A cruz, como vimos atrás, representa a sua crucifixação. O dia de Santo André é 30 de Novembro.


São Bartolomeu

Foi, segundo os registos, pregador na fronteira entre a Índia e a Arménia. No seu escudo são representadas três facas de esfolar. Outros desenhos referentes a este apóstolo apresentam também uma Bíblia. A Bíblia simboliza a sua fé e as facas são um signo para o seu martírio. De acordo com a tradição, Bartolomeu terá sido esfolado vivo, crucificado e decapitado. O dia de São Bartolomeu é 24 de Agosto.

São Filipe

A tradição diz que Filipe foi missionário na região da Frigia e Galácia, antigos Reinos situados no interior da actual Turquia. No seu escudo aparecem dois pães e uma cruz. Os pães significam a presença deste Apóstolo quando Jesus, diante de uma multidão, terá realizado o milagre da multiplicação dos pães. A cruz lembra o seu martírio. Diz também a tradição que ele foi amarrado a uma cruz e apedrejado até à morte. O dia de São Filipe é 1 de Maio.


São João

João era irmão de Tiago, o Maior. Foi bispo da igreja de Éfeso e autor dos textos do livro do Apocalipse. Morreu quase centenário e foi o único dos discípulos a perecer de morte natural. O dia de São João é 27 de Dezembro.


São Mateus

De acordo com a tradição, terá levado a fé cristã até à Etiópia. O seu escudo tem três bolsas de moedas, representativas da sua profissão de cobrador de impostos. O dia de São Mateus e 21 de Setembro.


São Matias

O escudo de Matias apresenta uma Bíblia e uma faca. A Bíblia representa as suas características de grande pregador. A faca representa o seu martírio. Acredita-se que terá sido apedrejado antes de ser decapitado. O dia de São Matias é 24 de Fevereiro.


São Paulo

Paulo percorreu uma grande quantidade de territórios, nas suas missões evangelizadoras, desde Chipre até à Ásia Menor. É autor de 13 das epístolas do Novo Testamento. Paulo terá sido decapitado, em Roma, no ano 68. A Bíblia aberta e a espada, no seu escudo representam as Escrituras como uma “Espada do Espírito”. São Paulo é lembrado no mesmo dia de São Pedro, a 29 de Junho.


São Pedro

Pedro era pescador e terá sido chamado por Jesus para ser, tal como João e Simão, “pescador de homens”. Foi crucificado em Roma no ano 67, pelo Imperador Nero. As duas chaves no seu escudo representam as “chaves do Reino do Céus”.


São Simão

Algumas referências históricas apontam para que tenha levado a cabo o seu trabalho missionário no oeste da Palestina. Simão terá sido decapitado e cortado em pedaços. O seu escudo sugere que terá sido um “pescador de homens”. O dia de São Simão é 28 de Outubro


São Tiago, o Maior

Tiago levou o seu caminho missionário até à Galiza, no noroeste de Espanha. Foi decapitado pelo Rei Herodes. É o único apóstolo cuja morte é mencionada na Escritura. No seu escudo estão representadas uma concha, simbolizando a sua peregrinação pelo mar, e uma espada, signo do seu martírio às mãos do tirano. O seu dia é comemorado a 25 de Julho.


São Tiago, o menor

Os registos eclesiásticos apresentam-no como tendo sido o primeiro bispo de Jerusalém. O serrote no seu escudo é também signo da sua morte violenta e esquartejamento. O dia de Tiago, o menor, é 1 de Maio.


São Tomé

Tomé foi missionário entre a antiga Pérsia e a Índia. No seu escudo aparecem um esquadro e uma lança. O esquadro é uma referência a uma igreja, que terá sido construída com as suas próprias mãos, na Índia. A lança terá sido o instrumento que lhe provocou a morte. O dia de São Tomé é 21 de Dezembro.


10- O Ano Cristão

O Calendário Litúrgico Cristão tem profundas raízes na tradição hebraica. Não pretendemos aqui efectuar um estudo teológico, apenas uma classificação generalizante dos significados dos períodos do ano, até porque os mesmos podem ser interpretados de diferentes formas, de acordo com as tradições da cada facção cristã e tradição litúrgica. Deste modo, as quatro semanas que precedem a Páscoa, correspondem ao período da Quaresma. Após a Páscoa, são celebradas as sete semanas do Júbilo, cujo ciclo termina no dia de Pentecostes.

O Ano Cristão, além da comemoração, de sete em sete dias (com os Domingos), da ressurreição de Jesus, divide-se em três ciclos, ao longo do ano: O Ciclo do Natal inclui as quatro semanas do Advento e os doze dias do Natal, e termina com a Epifania do Senhor. O Ciclo da Páscoa começa na Quarta-Feira de Cinzas e encerra no Domingo de Pentecostes. A Quaresma decorre da Quarta-Feira de Cinzas à Páscoa. É uma preparação penitencial simbólica, na qual os crentes mais devotos praticam um jejum.

A Igreja Católica Romana não dá à Epifania a mesma relevância que, por exemplo, a Igreja Católica Ortodoxa Russa dá. Para a Igreja de Roma, o “Tempo Comum”, ou “do Espírito Santo e da Igreja”, é marcado pelo ciclo semanal da comemoração do Domingo e divide-se em duas épocas: a primeira, entre os tempos do Natal e da Quaresma; a segunda, entre os tempos da Páscoa e do Advento.


11- Considerações finais

Tendo em conta a diversidade de formas de culto dentro da fé cristã, não se mostrou tarefa fácil conceber este trabalho. Porque, provavelmente, seriam necessárias dezenas de milhares de páginas para fazer uma classificação detalhada dos símbolos cristãos. Só em relação à Bíblia, seriam necessários anos para compilar todas as interpretações das diferentes escolas teológicas.
Se no catolicismo a fragmentação é grande, em termos de culto, nas Igrejas Evangélicas modernas, ainda é maior. Porque as comunidades religiosas locais fazem, muitas vezes, as suas próprias interpretações dos signos, quer sejam objectos de culto, na sua diversidade ou os próprios actos das personagens bíblicas, enquanto signos. Por isso, classificar todas estas interpretações seria uma tarefa interminável.

Este trabalho procurou, de forma simples, mas objectiva, abordar as simbologias do espaço cristão, centrando a abordagem num dualismo principal entre o Ocidente e o Oriente.
Notas

[1] Rá é a representação da principal divindade solar da mitologia do Antigo Egipto. A esta Divindade era atribuída a responsabilidade de fazer regressar o sol, todas as manhãs.

[2] Brahma é o primeiro dos Deuses da Trindade Hindu. Representa a força cósmica que criou o universo.

[3] Bispo de Cesareia, capital romana da Palestina

[4] Dá-se o nome de Cristograma ao símbolo criado por Constantino para representar graficamente o cristianismo. A sua composição resulta do cruzamento das duas primeiras letras da palavra “Cristo”, escrita em grego, nomeadamente, Xi (χ) e Ró (ρ).

[5] Os Iconógrafos eram monges da Igreja primitiva, a quem era dada a tarefa de representar as figuras divinas.

[6] Neste concílio ecuménico, que reuniu todas as comunidades cristãs do séc. VIII, baniu-se a iconoclastia, tendência que havia surgido com o propósito de erradicar a adoração de ícones religiosos.
[7] A Epifania é o fenómeno de luz, que conduziu os Reis Magos até à gruta onde terá nascido Jesus. Embora não faça parte da tradição católica romana, é comemorada pelas Igrejas Ortodoxas e Evangelistas.

Fontes:

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CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain: “Dicionário dos Símbolos”, Editorial Theorema, Lisboa, 1997

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